Eu vou morrer. Corro ao espelho e apalpo a face, estarrecida. Estou absurda e desmemoriada. Quase excitada, a Morte, me espreita. Investigativa, a Morte, me assedia. Sou vulnerável, e isso dá medo. Pode ser que ocorra ainda hoje – embora ache pouco provável, sempre acho pouco provável morrer no dia de hoje – e pode ser que seja amanhã, ou daqui a alguns anos, em 2027. De pensar Nela, quase choro. Porque não fiz por merecê-la. Por mérito ou vingança, a Morte não me convém. Talvez não me procure, ainda, eu tenha tempo. Este é seu método de pressão, penetrando-me os minutos como se não existissem e indagando-me sobre o que estou fazendo agora, e o que farei depois, mas o que foi que eu fiz?! A Morte, Pessoa Jurídica, está sempre ligada, sempre logada, always online. Deve andar cheia de post-its, deve usar o outlook, a Morte – senão, como se lembra? Quem sabe é ela que decide a forma, as ferramentas; não apenas hora e lugar. A Morte dispõe de autonomia total, sua única missão é fazer acontecer: não pode a Morte adiar um trabalho eternamente; se estiver cansada, no máximo, deixa para amanhã – teve gente que, como não incomodava, que já estava em coma há anos, esperou mais um pouco. Às vezes coincide de Ela entediar, e improvisar, e pode ser que seja na sua vez – ou na minha, que estou por aqui, por enquanto – e pode ser que, mais tarde, no quarto de hotel, tomando cerveja e comendo amendoins, a Morte, assista ao noticiário de meias, e dê risada. A Morte, de mim, só tem andado distraída. Um dia lhe dá um estalo, e Ela me procura; e se me mudo – e se emudeço mesmo, encolhida embaixo das escadas – Ela me acha. Eu vou morrer, um dia, eu vou morrer. É esta certeza que me mata.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
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