O cara acendeu um cigarro. O cara acendeu um cigarro e jogou qualquer coisa fora. "Qualquer coisa" não porque fosse uma coisa qualquer, mas porque de onde eu estava não podia saber. O cara jogou o corpo pra trás no banco de madeira e deixou-se escorregar, penso, pra fumar com tranquilidade - até então o cara tava puto ou alguma coisa assim. As pessoas do lado do cara começaram a fungar e fazer cena de que não suportavam cigarro, ou fumantes - o que dá quase no mesmo embora o segundo caso seja mais grave, um tipo xenofobia. O cara olha pro cara da moto, os dois se engasgam, e o cara da moto quase atropela um cachorro. O cara fica puto. Não porque goste de animais, ele não tem a menor cara. Não sei por que então. Uma mãe passa o filho pro outro lado por causa do cigarro - ou do cara. Vai passando o tempo assim, essa tensão, esse thriller; daí então chega o ônibus, o cara se levanta assim, cheio de dominância; o cara vai andando em direção ao motorista, espera todos entrarem - não por educação, mas por privacidade que quer ter ali, na hora; nem pensa - e pergunta - cigarro nos lábios, olhos piscando na fumaça: "Esse ônibus aí... passa lá na Rua das Margaridas?". O motorista olha pra ele e bufa num riso; abana a cabeça negativamente. "O ônibus que passa lá fica na plataforma B." O cara passa o antebraço na testa pra secar, olha pra tal plataforma B, olha pro motorista. Ônibus ligado, fábrica de ar quente. "Aquele ônibus é muito caro", pensa o cara. "Duas quadras é quase nada", diz o cara. O cara apaga o cigarro com o pé direito, solta a fumaça e entra no ônibus. Lá dentro, ninguém mais repara nele; uns de fone de ouvido, outros conversando com os que estão em pé. Ninguém desconfia, mas ele é O Cara.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
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