segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

nota de ausência

escrevo para informar que não escreverei por um tempo. quem acompanha sabe; eu já (não) fazia mais isso. ou, se fiz, foi raso. acho que volto. volto, sim. mas quero mudar o visual do blog, ou mudar-me daqui. promessas de ano novo, sabe como é. mas eu volto, prometo também.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

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então eu era uma moça suave, e como um vinho eu descia; alguns me pegavam pra cheirar, outros me esperavam sangrar, e a me julgar davam notas que eu jamais me alcançaria.
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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O pedido

Com eles sempre foi tudo diferente. Foi ela quem fez O Pedido. E foi ele quem enrubesceu. Ela pediu gentilmente, como se na verdade não quisesse, que ele a esquecesse, e lentamente tomou de volta as próprias mãos, e lentamente obteve força nas próprias pernas para caminhar em sentido contrário, a favor do vento que encrespava o mar e lembrava aquelas tardes de outono e caos, em que barcos tentam se abrigar da chuva que nunca chega. Ele de alguma maneira tentou impedir alguma coisa, que talvez fosse a sua partida, ou apenas o gesto de ir daquela forma, sem muito dizer, sem carinho. Depois, o tempo passou tão depressa, e tantas coisas aconteciam, que eles até acreditaram que era pra (não) ter sido aquilo mesmo. Como as tartarugas que nascem e cegas se lançam das areias para o mar.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

mundo cão

Voltava do trabalho. Notei caminhando logo à frente uma mulher aparentemente vestida de capa de chuva. Andava como se lhe aguardasse um compromisso. Era noite e demorou para que eu percebesse, depois de tê-la notado, que a capa preta era na verdade um saco de lixo. Não chovia. Eu caminhava assim, olhando-a sem interesse, quando percebi também que a seguia um cão. Um cão pretinho com patas miúdas, que caminhava como ela, à procura. Apesar do cão estar sem coleira, ela parecia confiar que ele a seguia - ou talvez nem soubesse, talvez não importasse; pode ser. De repente, ocorreu diante dos meus olhos um dilema. Um senhor surgiu da escuridão com um laminado contendo restos de comida - tinha feijão, uns pedaços de carne - mas tão pouco que nem o cão se fartaria. O homem abaixou-se próximo a um poste e estendeu a comida ao cão - a mulher caminhava com o olhar sempre adiante, como se objetivasse algo muito além de alimento ou casa; nem sei se era lúcida, creio que não. Neste momento, o cão miúdo, o cão mixuruquinha, parou de súbito diante da comida, farejando-a ressabiado - sabe-se lá quantas vezes lhe ofereceram algo assim tão de graça, sem um ponta-pé em troca. Mas então o cão olhou para a mulher, olhou com um desespero, sabe? Ela caminhava já a alguns metros de nós - eu desacelerei as passadas para observar a cena, insistindo em meu peito que o cão, pelo amor de Deus, se alimentasse - mas ele ficou olhando para a mulher, olhando para o prato, olhando para a mulher... enfiou a cabeça no laminado, e mastigava com pressa olhando para ela, como que não querendo perdê-la de vista. Eu passei por ele, juro, com vontade de chamá-la, de dizer "este é seu cão!", mas sentindo uma coisa que não sei, aquela coisa que diz "que bobagem, esqueça isso!"; simplesmente entrei em meu prédio. Ao pisar em casa, lembrei do Duque, que me sabia chegando desde o barulho das chaves lá embaixo, e me aguardava sobre o sofá, meio agachado, chamando pra farra. Eu não tenho mais o Duque. Sem me desfazer da mochila, de nada, tornei a fechar a porta e desci as escadas com uma pressa no coração que tinha o compasso dos passos daquela mulher. Saí do prédio em direção ao poste, mas de longe já se via que o cão não estava mais lá. Aproximei-me para me certificar. Realmente, nem sinal do cão. Mas a comida, a comida estava ali no pratinho laminado. Praticamente intacta.


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Mundo Can

Volvía del trabajo. Noté que caminaba delante de mí una mujer aparentemente vestida con una capa para la lluvia. Caminaba como si la esperara un compromiso. Era de noche y pasó tiempo hasta que me di cuenta, después de haberlo notado, que la capa negra era en realidad una bolsa de basura. No llovía. Yo caminaba así, mirándola sin interés, cuando advertí que también la seguía un perro. Un perro negrito con patas menudas, que caminaba como ella, buscando algo. A pesar de que el perro no tenía collar, ella parecía confiar en que la seguía —o quizás ni lo supiera, no importaba; puede ser. De repente, delante de mis ojos sucedió un dilema. Un señor surgió de la oscuridad con un plato laminado que contenía restos de comida —había porotos, unos pedazos de carne— pero tan poco que ni el perro se llenaría. El hombre se agachó cerca del poste y le esparció la comida al perro—la mujer caminaba con la vista siempre adelante, como si su objetivo estuviera mucho más allá de alimento o casa; no sé si estaba lúcida, creo que no. En ese momento, el perro diminuto, el pobre perro, paró inesperadamente frente a la comida, husmeando con recelo —vaya uno a saber cuántas veces le han ofrecido algo gratis y de ese tamaño, sin un puntapié a cambio. Pero entonces el perro miró a la mujer, miró con desesperación, ¿me entiendes? Ella ya caminaba a algunos metros de nosotros — yo desaceleré los pasos para observar la escena, insistiendo dentro de mí para que el perro, por el amor de Dios, se alimentara —pero se quedó mirando a la mujer, mirando el plato, mirando a la mujer… metió la cabeza en el plato, y masticó con prisa mirándola a ella, como quien no quiere perderla de vista. Yo pasé a su lado, lo juro, con ganas de llamarla y decirle “¡Este es su perro!”, pero sintiendo un no sé qué, eso que dice “¡Qué tontería, olvídate de eso!”; simplemente entré a mi edificio. Al pisar mi casa, me acordé de Duque, que sabía cuándo yo llegaba por el ruido de las llaves allá abajo y me esperaba en el sofá, medio agachado, invitándome a hacerle fiesta. No tengo más a Duque. Sin sacarme la mochila ni nada, volví a cerrar la puerta y bajé por la escalera con una prisa en el corazón que tenía el compás de los pasos de la mujer. Salí del edificio en dirección al poste, pero de lejos se veía que el perro ya no estaba más allí. Me acerqué para estar segura. Era verdad; no había ninguna señal del perro. Pero la comida, la comida estaba allí, en el platito laminado. Prácticamente intacta.

Versión en español, por cortesía del amigo Raul Fitipaldi. Traducción: Tali Feld Gleiser.


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

um jeito meu de me dar

de repente eu agi como se houvesse uma possibilidade absurda, como se eu quisesse alguma coisa além daqueles olhos ali me olhando; eu, que era tão de mim que vinha sendo, que não levava nada pra casa, assim de graça, nem trazia, nem me permitia emoções que transbordam, que fazem rir doendo, que fazem querer esconder o rosto - sem vergonha. comecei a entregar minhas malas todas a um ser estranho, recém nascido pra mim, recém nascido pro meu mundo, sobre o qual eu havia lido alguma nota de existência anos antes, e que não me chamou atenção, que me passou batido como muitas outras coisas passaram batidas até ali. de repente eu estivesse frágil, diriam, carente? não era carência, não era fragilidade; eu posso afirmar que estava em meu momento fênix, me restabelecendo de uma onda cinza, mas já me sentindo forte, dando braçadas por cima de outra onda de espuma branca, sem pensar em ninguém, sem ter o desejo abstrato do romântico; porque todo o romantismo havia se dissolvido em mim há algum tempo, e eu já estava cansada de forjar maneiras de permitir que ele me arrebatasse novamente; o romantismo estava vencido. as contas de casa, algumas, vencidas. e as relações todas; tudo. então eu encontrei essa reencarnação de alguma possibilidade que não tem nome - veja bem, tente entender minha dificuldade: é tudo muito sem nome, sem adjetivo, é tudo muito atual, no momento da fala - e entreguei aparentemente sem dificuldade quem era eu naquele momento - mesmo que eu não soubesse quem era. Eu fui dando assim, oferecendo, mostrando, como um fornecedor apresenta um catálogo, quase sugerindo as cores. e a pessoa que ouvia, a pessoa que me assistia ali com aqueles olhos que não me conheciam, recebeu aquilo de modo desvalorizado, como se aquilo fosse um costume meu de me dar; não era. e agora eu não sei como eu pego isso tudo de volta.

terça-feira, 26 de julho de 2011

o mergulho

Começaram contando até três, e afundaram. Segundos ocos aqueles, com marteladas mudas e tiros nus; mas era água só, e a sede deles, os dois inchados feito peixes, olhando-se entre bolhas; vamos voltar? Voltaram. À superfície pareciam respirar um ar urgente e findo, como se voltassem à vida e fosse aquela a última chance. Um-dois-três, mergulharam. Arraias, areias, arranha-céus. Estrelas-do-mar, recifes, cavalos-marinhos. E os dois se olhavam sem ar, os dois a tatear o fundo do aceano do mar. Um-dois-três e já! Cabeças fora d'água, respirando feito filhotes que acabaram de nascer. Era o mundo de novo, um espaço aberto entre cores e sons. Tudo bem? Tudo bem, e pronto. Embaixo d'água novamente, a vida se revelava como um ultrassom; e os dois boiando, boiando, sendo simples. De repente, não se sabe o que que deu, ela tomou impulso com os pés-de-pato, ele deu umas braçadas ao norte, e eles se chocaram, snork contra snork, um-dois-três-e-já. Já eram.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

adeus azul

o adeus tem cor azul
a chegada é amarela, já reparou?
o adeus, como está em tudo
desperdiçado, comunitário
de todos é, e pra todos é
sendo o que foi e será
o adeus está, e esteve, foi
o que eu quis esconder um dia
pra depois me lembrar, pois
o que passou foi bom, e nem tanto assim.

quando era o adeus uma irmã,
sabia de tudo, cobria tudo
uma alameda por onde passavam casais

depois o adeus foi ficando distante da gente,
como se tivesse crescido, como se amadurecido
não pudesse falar, nem lembrar, de tempos atrás

hoje o adeus anda nas esquinas
embaixo dos viadutos, procura suspenso
um ar absoluto, de quem encontrou a paz
- por cima da gente o adeus nos cumprimenta
e às vezes inventa que fomos amigos,
nos amamos mais e mais

eu deixo para ele umas moedas
nem por dó, nem por estar só
e ele me recebe ainda
porque é linda, linda demais
a lua, a rua, as coisas todas
que juntos juramos esquecer - e faz
uns anos e uns trocados
que eu não me esqueci.

terça-feira, 14 de junho de 2011

vermelho

todos diziam que isso que era bonito neles. que desde o princípio tinham tudo a ver, mas ele muito tímido, e se conheceram depois que ela já namorava o outro. que ela sempre demonstrou interesse nas frases dele, de perguntar "ahm? por quê?" e rir do que ele nem tinha dito e ela havia entendido; detalhes dela que ele já sabia: o jeito de pegar nos talheres, de colocar o cabelo pra trás quando ria, de fingir que ia prendê-los e soltar, de escrever poemas e gostar de vermelho; mas ela sempre muito ocupada com o outro, não lhe prestava atenção, não lhe sabia os detalhes. parecia que ele sentia tudo sozinho! até que um dia, com a maior brevidade que cabia no sutil, ela olhou para ele, os dois sem dizer, e ficou dito. mas a vida continuou assim, e isso que era bonito neles.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

então era isso

então eu era essa palavra que estavam esperando; talvez um sim ou um não, alguma sentença de alívio, uma decisão depois da decisão. E eu descia os degraus, e subia escalando. Eu estava leve de uma leveza bruta, de uma sensatez estúpida e entorpecida. Eu estava diferente, sendo eu mesma. Daí me confortei com o que eu tinha do que eu não tinha mais, e se queria ainda ou não, era isso que eu tinha, e me aliviava, cada vez mais eu me aliviava, como se tirasse as roupas e as deixasse caídas ao chão; de uma nudez travestida, de uma nudez neon, eu era um sapo, uma princesa, eu era a madrasta, eu era uma porção de personagens cabíveis que não se continham unicamente em mim, e me extravasam, e todo mundo ficava sabendo. fora isso eu não era mais nada.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

a dor perfeita

De novo a dor. Quando ela chega, toda elegante, carregando a frieza como uma mulher de scarpin carrega a sua bolsa, eu finjo que nunca a tinha visto para vê-la enfim despir-se para mim outra vez. Reparo nela como quem aprecia um vinho antes de tomá-lo. Eu a contorno, quase como se a reconhecesse, mas para não desapontá-la, eu me entrego e choro. Penso em quantas vezes a revisitei de ângulos diferentes; às vezes chegava pela direita, às vezes pela esquerda, vinda de leve de cima, por baixo; nunca contudo atingindo o seu centro, nunca conseguindo – ainda buscando – a sua totalidade encarnada; como se fosse eu a adulta e ela a criança, eu tentava me fazer pequena para viver com ela aquele mundo, e fingia que no fundo eu não sabia que ela um dia passaria; que nem ela nem eu – a adulta – éramos permanentes. Eu cultivei a dor enquanto ela brotava porque entendo que ela me situa mais que a alegria. A alegria é uma moleca desvairada que vai pra todos os lados, indecisa e absurda, precisando ter limites e não querendo. A alegria faz eu me sentir injusta com alguém, como quando tomo água da torneira enquanto crianças padecem de sede e em algum lugar do mundo alguém paga cinco euros por ela. Mas a dor está toda aí de graça, e precisa ser valorizada. Chega em silêncio se instalando, e ninguém diz nada; então ela arma um escândalo, derruba muros, se embebeda e atropela; chega em casa tomada de humilhação e revolta, como um filho que volta da escola com o olho roxo; e eu só posso amá-la, vai passar, eu te amo, minha dorzinha. Procuro um cicatrizante pra ela, ela não sabe que está tomando o remédio da sua morte; eu penso em como quero ser alguém legal pro mundo, no quanto posso ainda fazer força, a minha parte; penso em como tudo é perfeito assim, em seu modo de respirar, até os seres sem pulmões, eles também compartilham esse ar, o ar da dor; linda ela, perfeita.


terça-feira, 10 de maio de 2011

carta amiga

Essa é uma vida de possibilidades, e de renúncias. Cada possibilidade, uma renúncia ou mais. A gente parece que nasce sabendo um monte de coisa, e à medida que cresce vai ficando mais estúpida em relação à vida. Não sei. Parece. Aumentam-se os temores. Talvez a dramatização diminua, é. A gente meio que perde a cara de pau pra ser dramática quando alcança os trinta. Eu tô quase lá. De vez em quando rola um draminha. De leve. Tanto que ninguém fica sabendo. Estou cada vez mais sendo de mim; minha boneca. Faço escândalos internos, fico magoada; depois passa. Não sei se contigo é assim. Tu és mais escancarada. Às vezes atrapalhadamente escancarada, porque, claro, é difícil encontrar a medida de ser. Eu sou contraída. Você expansiva. Acho. E invejo isso de uma maneira boa que me faz ser tua amiga, conviver, tentar ser mais - ou menos - alguma coisa. Invejo os que choram pra fora, os que se rasgam, os que se emocionam, apertam, pedem que não se vão, ligam de madrugada, entopem as caixas de mensagem das pessoas; essas pessoas não se torturam. Se soubessem a hora de parar - como eu não sei; já que eu nem chego a dar a partida - seriam tão mais acima dos outros mortais. Não sei por que te falo dessas coisas. Quando eu te conheci, e eu tinha o que, uns 18 anos, primeiro que eu não imaginava continuar tua amiga vendo os trinta chegar - naquela época de "efervescência" a gente não esperava nem o pôr-do-sol junto. Dez anos depois, ainda somos jovens, e já não somos mais. Tenho três sobrinhos, uma afilhada. Fiquei pra titia, nega. Troquei as crônicas do Veríssimo pelos poços profundos do Caio Fernando Abreu; não ouço mais hardcore, mas fiquei pesada. E também comecei a sentir certos arrependimentos. Se eu pudesse voltar atrás uma única vez na vida, não sei se voltava pra barriga da mamãe ou se pro vestibular, a tempo de escolher algo promissor. Fora o desejo de voltar praqueles dias de sol nos bancos da Federal, ou antes: praquelas tardes de domingo tomando banho de mangueira na casa da vó. Sabe, amiga, certas coisas levam anos. E são levadas por eles. Bom que você ficou.

quinta-feira, 24 de março de 2011

por muito tempo eu pensei em não ir; não estava lá, portanto, por que ir? e quem estava, já fazia tanto tempo, já fazia tão pouca falta, então pra quê? quando me disseram que havia lá alguma coisa que não sabiam nem dizer o que, eu até pensei em ir, para descobrir mesmo, ou para confirmar; porém avisaram, como se soubessem com certeza, que eu não poderia voltar. ah, pensei, se ir não fosse tão definitivo...

quarta-feira, 9 de março de 2011

melembro

às vezes eu me lembro de coisas que eu acho ninguém vai lembrar e sobe por dentro de mim e desce por dentro de mim até parar e eu esquecer de lembrar de novo dessa coisa que eu penso comigo de vez em quando e que não posso contar a ninguém porque só eu que me lembro acho só eu que me basto no acaso do que sou agora e ninguém vai perceber ainda que todo mundo diga que sempre soube que sempre é que sou mas desconfio que não sabem o quão profundo é o fundo da vida rasa que me arrasta.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O Cara

O cara acendeu um cigarro. O cara acendeu um cigarro e jogou qualquer coisa fora. "Qualquer coisa" não porque fosse uma coisa qualquer, mas porque de onde eu estava não podia saber. O cara jogou o corpo pra trás no banco de madeira e deixou-se escorregar, penso, pra fumar com tranquilidade - até então o cara tava puto ou alguma coisa assim. As pessoas do lado do cara começaram a fungar e fazer cena de que não suportavam cigarro, ou fumantes - o que dá quase no mesmo embora o segundo caso seja mais grave, um tipo xenofobia. O cara olha pro cara da moto, os dois se engasgam, e o cara da moto quase atropela um cachorro. O cara fica puto. Não porque goste de animais, ele não tem a menor cara. Não sei por que então. Uma mãe passa o filho pro outro lado por causa do cigarro - ou do cara. Vai passando o tempo assim, essa tensão, esse thriller; daí então chega o ônibus, o cara se levanta assim, cheio de dominância; o cara vai andando em direção ao motorista, espera todos entrarem - não por educação, mas por privacidade que quer ter ali, na hora; nem pensa - e pergunta - cigarro nos lábios, olhos piscando na fumaça: "Esse ônibus aí... passa lá na Rua das Margaridas?". O motorista olha pra ele e bufa num riso; abana a cabeça negativamente. "O ônibus que passa lá fica na plataforma B." O cara passa o antebraço na testa pra secar, olha pra tal plataforma B, olha pro motorista. Ônibus ligado, fábrica de ar quente. "Aquele ônibus é muito caro", pensa o cara. "Duas quadras é quase nada", diz o cara. O cara apaga o cigarro com o pé direito, solta a fumaça e entra no ônibus. Lá dentro, ninguém mais repara nele; uns de fone de ouvido, outros conversando com os que estão em pé. Ninguém desconfia, mas ele é O Cara.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Resultado do II PRÊMIO LITERÁRIO CIDADE POESIA

Associação de Escritores de Bragança Paulista
Resultado


CATEGORIA: CONTO


A Associação de Escritores de Bragança Paulista – ASES – tem o prazer de divulgar o resultado do II Prêmio Literário Cidade Poesia. A solenidade de entrega de prêmios e o lançamento da antologia estão previstos para o segundo semestre de 2011, possivelmente nos meses de agosto ou setembro. Entraremos em contato com todos os autores abaixo relacionados a partir do próximo mês de março.


Melhor conto na categoria "autor bragantino":

O elixir da longa vida
Autora: Milena Dias de Paula – Bragança Paulista


Categoria Geral (mais de 400 inscritos):

1° lugar:
O polvo
autora: Rita Isabel dos Reis Garcia Fernandes – Amora - Portugal

2° lugar:
A maçã
autor: Camões Ribeiro do Couto Filho – Taubaté – SP

3° lugar:
São Raimundo da Viola
autor: Jorge Sebastião dos Santos – Belo Horizonte – MG.


MENÇÕES HONROSAS
( em ordem alfabética de autores)

O Quimono
André Kondo – Jundiaí – SP

Depoimento
Benilson Toniolo – Campos do Jordão – SP

O cabelo loiro
Gracieli Borges Ferreira de Souza – Alfenas – MG

Torta de Palmito
Henrique Alberto Alves Ferreira – Diamantina - MG

Bio Boi
João Paulo Parísio – Jaboatão dos Guararapes – PE

A maçã do amor
Priscila Lopes – Florianópolis – SC

Pirilampos
Renato Benvindo Frata – Paranavaí – PR

DEMAIS CLASSIFICADOS PARA A ANTOLOGIA:
( em ordem alfabética de autores)

- O arranjo
Ana Cristina Mendes Gomes – Rio de Janeiro – RJ


- O ateu que acreditava em Santos
Anderson Ferreira S.Alcântara – Goianésia- GO

- Obsessão
António José Barradas Barroso – Paredes – Portugal

- Rei velho, Rei Novo
Bethânia Pires Amaro – Salvador - BA

- A catequese
Dinis Reis Sutil Miracho – Lisboa – Portugal

- Vó Lucrécia
Evandro Figueiredo Cândido- Elói Mendes –MG

- Livro de Sonhos
Iverton Gessé Ribeiro Gonçalves – Nova Prata – RS

- Manhã de inverno
Paulo César de Oliveira Tórtora – Rio de Janeiro –RJ

- Desatentado
Ricardo Maggessi Viola – Lambari- MG

- Homens
Rodrigo Alfonso de Figueira – Porto Alegre – RS

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escreva para

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Obrigada!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

canção de consolo

pra quando lembrar, cessar o olhar nesse outro ser; deixar entrar no teu coração o sim do não que passamos juntos. pra quando lembrar, não restar nenhuma dúvida pendurada em tua garganta, nenhum furor, nenhuma fama, e podermos lamentar o que não fomos quando tínhamos; pra quando lembrar, meu bem, estarei disposta a esclarecer o que tiver de esclarecer, e contigo esquecer o que agora não consigo; eu só te peço que não, não nessa encarnação, enquanto somos o que nós temíamos.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

intervenção

Primeiro, eu não era tão nova que não pudesse acreditar; nem tão limitada que não pudesse alcançar. Eu só tive medo, e não sabia antes do quê. Antes era um vidro embaçado. Antes era uma espinha de peixe de lado na garganta. Você sabe sobre o que eu estou falando, até quem não passou por isso faz uma ideia. Depois éramos tarde demais - eu sempre volto nesse ponto que não-sei-bem-o-que-é-isso. E viemos antes que todos pudesssem se prevenir, fizemos planos "incumpríveis" - e criamos um dicionário todo nosso, do qual hoje não posso fazer uso com mais ninguém; vivo a evitar certas palavras. Assim: eu fui desistindo, você foi desistindo, a gente nem se fez. Vale lembrar que eu te avisei, e você me avisou, como era impossível de se conviver, ainda que a gente tenha encontrado nessa coincidência a oportunidade boba de fazer durar alguma coisa. Após esses rodopios do tempo envolta da gente, eu me recordo não que te perdi, mas que te esqueci de trazer, e já não sabia onde havia posto, e como sempre estou atrasada, tenho que ir, vou andando...

Mas eu te espero ainda; como quem sonha em ganhar na Mega Sena, e não joga.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Selecionada no III Prêmio Literário Canon de Poesia

Com tema livre, o concurso, que teve sua abertura na 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, recebeu mais de 3 mil inscrições. Foram escolhidos os 50 melhores textos, que serão reunidos em um livro a ser lançado nos primeiros meses de 2011.

Disponível em: http://www.canon.com.br/Noticias.aspx?id=24377&origem=2


A pedidos...

Corpus Triste


Ando à beira do teu pesadelo-mãe.

Teu espectro na janela do banheiro

- a visão exacerbada de um anjo.


Para dentro das minhas trevas atravessam,

contemplam meu aspecto macilento

- anunciação.

Receio que esteja incomodando

esse parafuso em tuas mãos,

esse para-raio em teus cabelos.

Há tanta soberba, comentas,

eu sou teu irmão!


Nossos corpos

- vasos das mesmas mãos

: veneram opostos

- hóstias hostis.


(não creio em sono que perdure)


Durmo durante o dia.

À noite a Terra grita

- garganta em mim.


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

a coisa mais precisa

Após todas as idas&vindas de ejaculações dramáticas, eles ficaram um ano sem se falar sem que tivessem tomado decisão alguma; sem que agora recordassem quem foi o último a se pronunciar e o que disse para o outro tê-lo deixado sem resposta. Até então eles eram uma soma de traições e verões inflamados em que se devoraram; duas flores carnívoras. Sempre voltavam. Aí ela veio com aquela história de que iria se casar, de que ele não a levava a sério e agora nem ela sabia se o levava. Depois ela foi sumindo aos poucos e sem noção, não respondia em tempo hábil de se encontrarem, desativou o único número que tinham para contato, e foi desabando tudo que era ponto de referência seu na internet; virou a realidade numa tormenta tamanha que ele passou a depender dela pra tudo, até para se comunicar em pensamento. Então ele arrumou outra, e foram sendo os dois assim por um tempo: ela esposa, ele namorado. Sempre voltando para a sede que ainda tinham, mas tomando goles cada vez mais difíceis de descer - tinha coisa até que empurravam goela abaixo como se fossem obrigados a engolir aquilo. Não eram. E ela lhe chegou, depois de uns três meses sem dizer nem ver, chegou para ele com palavras escritas e contou sem que sentisse necessidade mais de ser melodramática, sem que sentisse mais necessidade dele até, ela contou que estava grávida. Do outro, claro, do verdadeiro, o vencedor, o todinho dela; e ela todinha do outro agora, abraçada pelo meio das pernas, chocando. Ele, ao ler aquilo, choveu. Ele molhou. Ele chupou os lábios pra dentro da boca que não tinha nem o que responder. Quase uma década de ponderações métricas sobre se aquilo era mesmo o melhor a fazer, voltarem; aguardando uma resposta divina que chegasse e tomasse por eles a decisão sem que doessem, esperando, sabe-se lá, que alguém morresse ou os raptasse ou os mudasse de plano espiritual; para chegar "ao final", e a Vida lhes dar a única definição, a coisa mais precisa.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

valer a pena

Comecei a sentir pena do mundo, e eu estava dentro. A gente ficava cada vez mais triste, cada vez mais querendo e faltando, empurrando e não indo; as coisas aumentando a nossa volta e a gente encolhendo. Lembro-me que abracei uma criança, agachada atrás de um balcão, e fiquei do seu tamanho para lhe dizer que não crescesse, senão não passaria mais naquela porta para o mundo das maravilhas, que é como aquelas portinhas do desenho do Tom&Jerry - que eu nem sei se ainda é transmitido na TV, porque eu encolhi com o mundo mas sou dessas coisas grandes e destrambelhadas como, como um elefante, é, um elefante animado e rosa, que faz dom-dom dom-dom quando caminha, mas a gente caminha feito formiga intoxicada, cada um com seu nada, e todo mundo querendo, puxando; ok, baby, generalizei - sou do tempo que se falava "baby" com um cigarrinho pendurado nos lábios - nem todo mundo é assim puxando, querendo, apertando; não é. Mas ainda é de dar pena. Tanta pena tanta, que eu fico com vontade de abraçar as pessoas - até aquelas que escorrem por boeiros nas cidades - e fazer silêncio, que vai melhorar, que tamo junto, que vou ficar aqui no mundo com elas, até passar.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

cera quente

Primeiro eu te sorria; tinha a memória seletiva de um cão. Era fácil assim. Você me entregava uma verdade tão absurda que era quase surreal, e eu achava admirável tamanha sinceridade; eu te sorria. A gente se abraçava no mundo e comemorava o encanto que éramos, de discretos e honestos e inocentes. Eu te dava paciência, e a paciência era também o nosso pão; a gente comia disso todo dia sem reclamar. E tu me davas uma porção de coisinhas, como estrelinhas de pelúcia coloridas, como esses móbiles de berço de bebê. Eu estava te esperando. Mas eu só estava te esperando porque você estava se preparando para mim. Você um dia iria chegar, e seria muito melhor que aquilo – se aquilo já era bom, com todos os seus defeitos, imagina quando ficasse; quando a gente progredisse e eu não tivesse mais que te dar paciência e nem tu explicações. Não foi bem assim, devo admitir. Quero dizer, você até que fez a sua parte. Quando chegou a minha vez, eu calei a voz do peito mas ainda ouvia os gritos que abafava para que tu não soubesses que eu era uma corrompida, que minha força era fraca. Depois você foi ficando cada vez melhor pra mim e quanto mais isso acontecia, mais eu enxergava que o que vivera até então era uma ilusão, uma falta de amor próprio; que não deveria nunca ter ficado esperando por ti, porque na época tu não valias nada. E eu comecei a recapitular nossos momentos, e a perceber o quanto eu já estava neles e tu inatingível: o último dia dos namorados, em que você escreveu no box que eu era uma bonitinha – depois fiquei sabendo através de um amigo, por acaso e sem malícia, que para ela havias feito assim o convite pra se casarem. Sabe, eu comecei a te conhecer depois de um ano e a descobrir que não havia conhecido, e que o que havíamos vivido era superficial. E em vez de me tornar uma pessoa agradecida, por teres te tornado muito mais do que eu pedira, eu comecei a ter por ti um sentimento que não é nem de raiva nem de dor, mas tão parecido com a simbiose disso que posso chamar de mágoa. Se o tempo todo poderia ter sido assim, por que não foi? Por que agora? Onde esteve esse tempo todo, e o que pensava, o que sentia? Essas perguntas todas não te faço – o tal grito que calo com teus lábios – pensamento que espanto feito moscas. Mas uma decisão eu tomei, e serei fiel a ela como não foste a mim: eu vou tirá-lo de mim. Infelizmente, não vai dar pra ser agora, com estupidez e arrogância – eu suporto uma depilação com cera até duas vezes por mês e não suportaria isso. Decidi que será como arrancar um adesivo que há muito tempo foi colado ali. Tem que ser pelas pontinhas, distraidamente, de vez em quando, talvez até molhar um pouquinho. Se eu arrancar de repente, pode deixar o rastro do teu papel, e eu não quero viver por ti o que tu viveu por ela e não me deixou ser feliz.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

já ia

Eu já sei o que você vai dizer. Que eu já tenho trinta anos na cara, que já pensei que não amaria de novo antes, e várias vezes, que eu já perdoei coisa pior e já pedi perdão por coisa que-meu-deus-do-céu; que eu era um galinha escroto aos vinte e sou uma mulherzinha atordoada aos trinta. Depois eu vou te lembrar das tuas também: daquela vez que você ameaçou se afogar na lagoa, morrer de amor; caminhou uns cem metros adentro com a água ainda na cintura, e a guria te olhando da beira da praia, a galera toda assistindo, deixando pra ver até onde você ia; você é muito raso, meu amigo, você não corre riscos. Conheceu, casou, deu; filhos, videoteca, casa no sítio. No fundo, eu queria ser você e você queria ser mais eu; mas não deu, pronto, chega.

sábado, 9 de outubro de 2010

Raios! Maçãs premonitivas atacam sendo. Ontem éramos hoje, e nunca saberemos.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

caraminholas

Primeiro assim: pontinhos coloridos; depois começam a girar girar e esticar as cores até formar dois caracóis médios; então sai do papel e vai um caracol pra cada lado da minha cabeça; ficam girando na altura da orelha; eu olho assim pro mundo, e os caracóis girando pra que eu ouça suas cores; parece um disco na vitrola, mas em vez de som começa a vir um cheiro, o cheiro dessa coisa de que necessito, e que chamo com uma quase alegria de inspiração; acho bonito o nome e começo a senti-lo, calculadamente; até que os caracóis ficam muito mais rápidos do que cabe em mim ouvir cheirar e eu começo a escrever escrever escrever como se os dedos tivessem a medida dos giros e o mundo fosse ter fim; eu escrevo giro escrevo giro escrevo giro e de repente acaba, como a criança que é parada num carrossel pela estupidez carinhosa da mão de um adulto; e tudo pede pra eu ter calma, e tudo diz que vai voltar, calma, vai voltar, mas eu sempre desconfio.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

medo

andei com medo. andei com medo abri uma porta e tranquei o medo lá dentro; era minha aquela porta, era minha. subi uma montanha, subi o mais alto que pude, deixei o medo lá mesmo; ele voltou rolando por cima de mim, descemos morro abaixo, trepidantes os dois de encontro aos rochedos. atirei o medo às ondas que estalavam ameaçadoras emergindo rupturas; o medo estava quase se afogando. o medo tem medo da água, de altura, de quartos escuros; o medo é meu; só eu sei o quanto tenho medo de perder o medo, e ir.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

alguns registros do lançamento em Floripa

Coquetel de lançamento de "Uns traços, todos imponderáveis"
Fotografia: Leonardo Gaudio


Café Cultura Bistrô
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Performance de Luiza Lorenz

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eu mesma.

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mais uma vez agradeço a presença de todos

estas são apenas algumas das fotos

devo divulgar todas no orkut em breve.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

a novidade

Começa a tocar uma música. Começa a tocar uma música, eu coço meu ombro, finjo que não li, que não sei, que não notei que ele está a minha frente; penso: enfrente, mulher, enfrente, seja adulta, seja você, seja, mulher! As vozes baixam aos poucos porque há uma música e todos querem tentar reconhecê-la - nós já sabemos. Eu tusso. Imagino-me escrevendo isso pra ele um dia, uma carta, um e-mail, e acho estranho escrever a palavra "tusso"; então começo a rir porque sei que ele me entenderia e não entenderia como posso ser assim ainda, depois de tantos anos, como posso não ter amadurecido nesse ponto de fazer piada até com a morte da galinha. Agora o riso é incontrolável, entortando-me os lábios, que mordo mordo, parem, por favor, parem. Lembro da história da galinha dele que morreu tragicamente e que me fez rir aquela noite, mas eu já tinha bebido uma vodka, eu lhe disse; ele ficou arrasado. Essa história de vez em quando vinha à tona, pobre galinha. A música parou e deu lugar a um amontoado de vozes, e de repente posso distinguir entre tantas vozes, uma mais grave, uma um pouco mais aconchegante, e meu olhar procura num desespero alegre de ver chegar o outro. O outro. Já vem falando de longe de quantas voltas teve de dar para encontrar uma vaga, e vem com flores e tudo, cheio de novidades, novinho em folha; então é a sua vez.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

"Uns traços, todos imponderáveis", Priscila Lopes


então me lanço à "carreira solo"
com este livro de contos
o apoio da Bolsa da Biblioteca Nacional
para autores com obra em fase de conclusão
e o primoroso trabalho da Editora da Casa
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lançamento em 16 de agosto, às 19h
no Café Cultura do Centro de Floripa
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abertura da exposição Imponderações
com seis artistas convidados a produzir
inspirados no livro que será lançado
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aguardem maiores informações

sexta-feira, 23 de julho de 2010

traída

Tenho pensando cada vez menos em você. Antes acontecia, podia estar feliz da vida, como dizem, podia estar olhando as estrelas num ponto alto da cidade, acontecia de me lembrar de você, e as estrelas caíam, o céu desmontava, meus olhos enxergavam a altura. Com o tempo, não sei se fui me acostumando ou se realmente aprendi a ignorar, simplesmente começou a acontecer de você se manifestar cada vez menos nas coisas. Uma música, uma cena na novela, um vizinho contando, vinha você, vinha você, e saía, sumia mesmo, parece que se afastava triste por não ter me causado nenhuma indigestão. Eu já consegui até me envolver com outra pessoa e pensar que o que você fez comigo não foi tão grave - "foi até melhor assim", já cheguei a esse nível de pensamento elevado. Ontem à noite, confesso, pensei muito. Porque quis mesmo. Eu me servi um vinho, eu me coloquei uma música, eu me sentei no sofá pensando em você; na verdade, daquela longa lista de perguntas que eu tinha pra lhe fazer, só restaram as que me causam certa preocupação contigo ainda - por amizade apenas: será que vocês moram juntos? será que lhe apresentou à mãe? será que ainda estão empolgados? ou será que ele já começou a fazê-la sofrer como fez comigo um dia?

segunda-feira, 19 de julho de 2010

salvação

Primeiro eu quis ficar pequena. Eu desejei de mim uma pequenez tão miúda que ficasse cada vez menor até desaparecer sua essência; vista de cima, a imagem fetal encolhida sobre lençóis brancos, espiralando. Depois comecei a pensar demais em mim, e a me compreender, me tolerar, entender que sou mesmo assim, mas que ainda tenho salvação. Comecei a fazer desenhos mentais do que eu pretendo, e de como vai ser bom daqui pra frente agora. Daí surgiu em mim - assim como se surgisse uma gotinha de infiltração numa rachadura na parede - surgiu em mim uma sensação de que tudo é tolerável, uma clareza que me fez, por instantes, amar a vida com tanta precisão, sabe! Eu vi isso indefinido desabrochar em mim, e crescer, crescer, crescer - sem forma sem nome - ficando enorme, até abraçar um monte de gente, e eu perceber - tudo muito rápido, preciso que entenda; não dura, não dura para sempre - eu percebi que a gente se ama; a gente, o Mundo; a gente tá aqui pra isso, pra ser isso, e cada um já se sabe que vai dizer essas coisas, e vai ter que ouvir essas coisas, e fazer ou não fazer coisas, mas se a gente compreende - como eu fiz e quase enxerguei alguma coisa perto de Deus - ganha uma liberdade escancarada para se sentir como quiser. A gente se salva.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

obstrução

mesmo que eu sem pensar proponha; não me deixe. que no momento que a boca disser, a mesma boca que te beija, a mesma boca que te come, te mastiga, te atravessa, a boca que te disser é uma boca que não presta; não me deixe. que o momento é sempre outro, está mais pra frente um pouco; a gente sabe, é inevitável o desencontro, mas fica pra próxima; não me deixe. que a briga de anteontem, já passou, o choro de onteontem foi só meu, e eu me viro, eu me atiro, eu me vou; mas não me deixe, por favor, não me deixe antes que eu me vingue.

terça-feira, 15 de junho de 2010

amor eu sei

então-tá-amor, é muito claro.
soube que você não é assim como eu tinha pensado, e que não suporta mais me suportar; soube que anda enjoado, que precisa andar distraído, mas que está muito claro e evidente tudo isso que sinto, amor; soube que quando teu olho me vê, não enxerga um quê, um brilho, essa coisa que quando explode coração exclama oh!, ah!, ai ai!... soube que eu não me comparo, que eu não chego aos pés, que eu não sou aquilo, que eu não sou aquela, mas que você me ama, amor; que você me adora e não quer que eu vá embora. Eu soube disso tudo, amor, e não duvido. Porque você me disse.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

carta curta

Procuro andar distraída, e caio em coincidências. Tento evitar; quando vejo, tô pensando de novo. Desculpa. Estou tão impedida de tudo que eu me sinto obrigada a ao menos te escrever para não explodir desproporcional e louca, extravasando o que eu sinto de uma forma que literalmente "ninguém merece". Já tentei todos os improvisos possíveis para não meter os pés pelas mãos. Às vezes tenho medo de que, me vendo imóvel - ainda que amordaçada, ainda que algemada - pense que faz parte de mim ser assim, que vou bem-obrigada. Na verdade, como uma lagartixa, sou só eu ali, me fingindo de morta; no fundo bolando uma estratégia para sair daquela situação o mais rápido possível - já se passaram alguns anos. Momento "perguntas retóricas": por que para mim é tão insuportável, e você vai vivendo? Por que para mim é todo dia isso, e você de vez em quando? Por que eu me sinto tão preparada agora, e você me postergando? Até quando? Sonhei contigo. Sonho toda semana. O sonho é uma realidade aumentada. Um dia você vai saber. O problema é que não sei de quanto tempo vou precisar contigo; por isso que já não te peço mais nada. Mas eu te escrevo com tanta certeza, sabe? Eu te quero com todo o meu coração. Brega até. Mas não é exagero. É muito-muito verdadeiro. De chorar até. Mas quase sempre eu sou feliz.

terça-feira, 1 de junho de 2010

girassol

Amarela. Sorri girassol. Contempla horizontes. Onde? Onde? Acende odores que minha lembrança esconde. Surpreende e reza. Ajoelho e penso que é a voz de nós. Desatamos, desatamos; e só nos prende o que não segura a loucura que é sermos dois, duas, iguais em gênero e graus. Diferentes, daqui a pouco sente que o caminho é outro, que o agora é muito pouco, e faz as unhas, diz que é mulher de um homem só. Não sou, sozinho, não sou. Correspondo a mim e me igualo a qualquer um. Corro na rua; ela no sinal, pára o trânsito e grita vermelho, verde; amarela. Ela. Vai na frente. Ela. Ela. Estampando os dentes, corajosa. Ela. Ela. Ela. Eu, quase sempre, fico pra trás.

sábado, 22 de maio de 2010

dois

Quando combinavam, nunca dava certo; um sempre faltava. Era mais fácil quando não sabiam - ah, como se ninguém soubesse! As mãos segurando uma impaciência que não se continha; os lábios se apertando de vontade. Duas crianças. Em certas ocasiões duravam madrugada adentro sem nem conversar. Mas não havia graça em ser só eles dois. Outro casal os excitava. Chegavam a enrolar mais um pouquinho, esticar ao máximo o fio do tempo até arrebentar-se numa gargalhada. Parceiros, cúmplices, insuportáveis até. Enumerando as esperas. Olhares cruzados no silêncio de um cigarro. E o gozo final, vitorioso: ... cinco, quatro, três, dois... Toma! Bati!

segunda-feira, 17 de maio de 2010

cachorra

Ou então não seria feliz com mais ninguém.

Via que voltar era um caminho se apagando. Farejava os espaços agora ocupados por outras pessoas; não reconhecia um cheiro que lhe tivesse pertencido. O cheiro do seu dono. Não era saudade, não era nem isso! Era aquela coisa que fica até chato falar porque não se sabe o que é pior: ouvir ou ter confessado, o apego. Um dia fugiu de casa, foi assim. Não sabia que fugiria; não sabia nem que estava indo a algum lugar e, portanto, voltar era algo que não havia cogitado. Quando viu, já era noite. Sentiu-se acolhida em tudo que era barzinho, lanchonete, balada. Ninguém mandava nela, ali, gostavam dela assim. E várias pessoas lhe ofereceram onde ficar, lhe fizeram carinho, brincaram com ela. Tanto que ficou mais um pouco. Dois dias no máximo. E voltou porque voltava, simplesmente. Talvez voltasse pra compartilhar com ele uma alegria que era só dela. Talvez porque apenas uma dose daquela droga de liberdade tivesse sido suficiente. Talvez, ainda, porque ele precisasse muito mais dela, e já devia estar sabendo disso. Ou...

segunda-feira, 10 de maio de 2010

os noivos

De vez em quando se olhavam, pensamento querendo. Enquanto um tentava solucionar um problema que era só cálculo - ainda assim suficiente para levar a mão esquerda à testa - o outro já havia desistido. De tanto olhar, às vezes se falavam. Quase fúteis. Equilibrados numa espera que era só deles, e que - sabiam eles - tinha de se perpetuar; mentalizavam conselhos infantis: calma, calma... é só não olhar pra baixo. E prosseguiam em pequenas doses de alívio e ansiedade a cada quinze dias. Às vezes também, pra piorar, um deles faltava. Mas até saber disso, como ter certeza? Como evitar os olhos na porta, a pergunta que não se tinha a quem fazer? Foi esse quase por quase dois anos. Até que se tornaram especialistas, e cada um foi morar noutro lugar. Ainda bem.

terça-feira, 20 de abril de 2010

encontro

Ela andava perdida perdida. Pra lá e pra cá, visitando gente, imitando o Creysson, fumando o Bob, chamando o Hugo. Estava, digamos, tentando se encontrar, procurando entender seu lugar no mundo etc. Não queria se casar, não é isso. Tinha acabado de acabar uma dessas histórias parecidas. Mas estava à procura, sabe como é, viver um desses lances superficiais pra nunca mais voltar, pra não olhar pra trás e se arrepender do que faz, como diz uma natalina. Talvez tenha visto nele uma chance dessa. Talvez ele tenha visto nela algo semelhante. Um tric tric, um tatibitate, um spitnick, enfim... alguém sentiu alguma coisa suficiente para. E ela que não era de entrar, e ele que não sabia se sair, acabaram se encaixando por lá mesmo e deu no que deu. O vicio tem dessas coisas, depois é que começam as coceirinhas e se descobre uma intolerância à lactose, alergia a camarão, indigestão com coisas que levam gergelim. Vai entender! Só sei que os vejo juntos, ainda: o sorriso dele no ombro dela, as marcas dela no pescoço dele, e a sobreposição de tons das roupas que nunca estão combinando, que nunca parecem concordar que vão pro mesmo lugar. Mas já estão lá, sabe, se acharam.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

tudo novo de novo

Não queria roubar-lhe flores, presentes, apetrechos de antigas relações, imortais. Chegou com uma taça de silêncio - queria experimentar o improviso simpático de quem não sabe por que veio - desajeitou as almofadas do divã, rolou pra baixo do tapete. Observa. Observa. Venera tanto que abala. Por fora tudo em concordância, conjunturado; costurando e descosturando línguas e lábios, alinhavados. Sede. Suspiro. Certeza? (parece desajeitada ela, tentando evitar a queda, do chão; tentando parar o trem nos trilhos, com a mão). Ignora que que cada encontro é uma saliva sua que sai da boca, é um cheiro seu no outro corpo, é um peito que vai beijado pela mão de outro; costas, nuca, pescoço; até ir-se toda, inteira, e não ter mais volta.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

sobre avisos e promessas


Soube que se separaram. Não pude conter a petulância de vir até aqui, de sair sabe lá Deus de onde, e vir, sabe lá Ele com que forças, até aqui, pra dizer que eu te avisei. Eu te avisei, eu te avisei. Eu disse tantas vezes que poderia citá-las pra que adormecesses, meu anjo. Eu disse e pensei e acho até que incomodei você com esse assunto por meses, até que você se foi, e eu entendi mas não me conformei, nunca. Não sou homem de mascarar sentimentos, não sou homem de achar que é humilhação qualquer palavra dita num momento de emoção. Até mesmo os palavrões; venero todos, e os trago pra junto de mim, e os abraço - são filhos meus naquele instante. De te esperar, a vida foi ficando. Depois, antes que eu encontrasse uma forma de te reencontrar, perdi o ânimo que me levava a tomar conta de você, a espreitá-la sussurrante, a recusá-la de tanto amar. Fiquei sabendo que estavam bem. Fiquei sabendo que tiveram um filho. Esperei você me ligar nesse dia, como se houvesse possibilidade - havia? Esperei você me ligar no mês seguinte, e naquele ano todo eu andei por lugares em que corresse o risco. Até que um dia eu vi num fime... não, eu ouvi numa música... eu li no Coríntios... eu pensei comigo... que o amor é paciente, ô se é, o amor é um doente bêbado que vive cantando na sarjeta; ou um balão desses que transportam pessoas, que a gente olha pro céu e não acredita como é que voa. E eu te deixei de lado, e eu me deixei ser feliz. Mas agora recebo notícias tuas na Páscoa. Vocês se separaram. E você tem um filho pra criar; eu sei, esse cara não tem condições de lhe pagar uma pensão. Então eu tô te escrevendo aqui pra esse e-mail que me disseram que de vez em quando você acessa. Tô escrevendo pra pedir tua conta bancária e tua agência, teu retorno, teu carinho - tua carência? - teu perdão; tudo-tudo, e simplesmente que, por favor, minha filha, volte pra casa. Beijo do pai, da mãe e do cachorrinho Tobby.

quarta-feira, 24 de março de 2010

constatação

Estava sóbria. Caminhava pensativa de si consigo sobre os outros. Então é só isso mesmo: a gente chega aqui, nos 20, nos 30, nos trinques... e ergue a taça da vitória dos erros acumulados que não voltarão a ocorrer. É isso só, a vida, conjunto de situações que servem pra deixá-la mais experiente, dizem, pra não revisitar equívocos. Sorri estridente, mordisca o lábio por dentro, e olha adiante, aberta aos erros inéditos. Toda arreganhada, sem vergonha; vive bêbada.

sexta-feira, 12 de março de 2010

sinto que

Lembro-me de que abrira a porta só pra sentir a respiração do dia. Encontrou silêncios no meu quarto que varreu discretamente para baixo. Você sabe que está ali comigo, você sabe desde o início. Eu disfarço que, bocejante. Como se de mim tranquila, me espreguiço à beira de um sentimento contorcido. Penso que é bom dia: bom dia, amor - não digo. Penso nisso o dia inteiro até dar boa noite, meu bem, estou indo. Compro doces que não dou. Decido que como todos menos um. Enfrento a vitrine da floricultura num shopping. Não sei que flores querem dizer que. Disfarço um presente sem papel, acho mais fácil assim. A entrega não é fácil, nunca foi pra mim. Agora deslizo do sofá para o chão, abraçando. Estou armando um sorriso, talvez desague. Você aguenta. Você aguenta por nós, por dois - você tenta ser mais: eu acolho todos que é. Somos infinitos ali, desfilando corpos conjugados (e espaços em branco que a mente procura ocultar pra nos deixar pensar o que quiser). Eu sou tua, eu sou tua - é meu grito. Mulher! Mulher!

quarta-feira, 10 de março de 2010

sobrou pra mim

Sobrou pra mim. Herança kármica. Ferida pra lamber adoecida por mim. Comprimidos contínuos no pires ao lado da caneca de cidreira. Sobrou pra mim. Um roupeiro, uma cômoda com cupim. Um ventilador que não gira, um aquário sem peixes, um depilador a pilha. Será que eu encontro o que me falta no Móveis Usados? num Sebo, num Secos e Molhados? Será que encontro na ausência o que me completa, esse ai de mim? Até então eu saía das lojas sem comprar - sem me vender; passava os olhos nas vitrines das casas que representavam a família que eu queria ser. Sobrou pra mim. Um gato bordado no pano de louça, uma lã, um fiapo de esperança que espera espera espera... espreguiçando-se do quarto à sala. Um disco do Chico senta e às vezes chora comigo. Um livro do Kundera me concorda e implora por vingança. Mas sou permissiva e aceito o que sobrou pra mim. Uma lanterna, um celular e um laptop. Caso você queira ainda se conectar comigo, ligar pra mim, surgir luz no fim do túnel. Caso realmente tenha sobrado alguma coisa.

quarta-feira, 3 de março de 2010

domésticos

Não demorou para que se descobrissem incompatíveis. Ele, que era todo extrovertido, todo gurizão, todo boa praça. Ela, que era toda de ninguém, toda esticada na dela, toda bichana. Ele, que era todo bicho grilo, todo sem pedigree, na raça, sol-a-sol; Ela, que era toda puro sangue, toda siamesa, sombra e água fresca. Antes era fácil até: somaram-se. Um tinha aquele quê que o outro admirava e queria pra si. Andavam soltos e sorridentes - e embora um do outro caçador, não temiam: encaravam-se, quase desejando os dentes no pescoço. Depois rolavam pelo chão, pelos lençóis, pelo varal – quase voavam, esses animais! Mas de repente, dessa admiração que era de um para o outro, começaram a se sentir grandes. E tão grandes ficaram que o corpo passou a ocupar o espaço que era do outro, e a zombar do que o outro não era, não podia, não sabia. De repente ficou muito engraçado ser tudo aquilo que o outro dizia, e ver que o outro não era nem metade do que esse queria. Esse, que era ela, de vez em quando ele, que intimamente começou a fazer exigências, e trocar o que é pelo que não é, e achar melhor assim; o outro, que era ele, quando nunca ela, que achava que podia receber mais em troca, que já se doara o bastante, que se sentia meio cão sem dono, na sarjeta. E depois, ninguém mais podia chegar perto dos pertences do outro que o outro avançava. Não se podia mais cheirar o pescoço do outro que o outro rosnava. Não se podia mais nem conviver na mesma casa, e por isso os donos - que ávidos assistiam ao desenrolar da novela, e haviam acreditado num final feliz - decidiram se separar. Ela ficou com ele, que não soltava muito pêlo. Ele ficou com ela, que não exigia tanta atenção. E os dois ficaram sozinhos, em kitnets, queixo sobre o parapeito da janela, pensamento pensando: pelo menos eu tenho o meu canto.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

recorrentes

Eram jovens, e foi quase sempre a mesma história. Ele encostado no balcão da cozinha, observava através do espelho gestos femininos; som de correntes contra a pia do banheiro. Arrastavam-se entre móveis. Lambiam-se distantes. E de vez em quando se comiam. Sem dó.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

melhor assim

Talvez nunca eles saibam. Que se continuassem juntos não teria dado certo mesmo assim, que separados estarão melhor ou pior ou igual; não, igual nunca. Que agora ela sai pra dançar nos mesmos lugares que ele e aparentemente está tudo bem. Que ele já levou outra mulher no seu apartamento e disfarçaram bem. Que estão juntos há anos e ainda não se conhecem ou não se reconhecem agora que são ímpares. Por mais que ele saiba aquele jeito de morder a boca que é só dela; por mais que ela imagine o que ele está pensando quando sua nova namorada fala que adora Pitty; ainda que a família de um não se conforme e que a do outro dê graças a deus; ou que o cachorro dela confunda o alarme do carro e corra pra porta - o cão contém uma esperança; ou que no restaurante do bairro agora ele almoce sozinho ou nem vá ou passe pela salada sem se servir - agora não tem ninguém pra lhe encher o saco, e afinal de contas todo mundo vai morrer um dia; ainda que se encontrem, eventualmente se abracem sentindo, e se desmanchem depois, completamente perdoados; ainda que ocasionalmente esqueçam até por que brigavam e o que era tão horrível que não pudesse ser superado; ainda que haja as fotos e as músicas, os DVDs, os livros, as coisas na estante... coisas que não se dividem, que só vinham a somar; ainda que se preocupem do outro voltar dirigindo daquele jeito, do outro ir dormir na casa de um estranho, do outro não estar comendo direito, do outro estar se endividando de novo; ainda que se preocupem com o outro... com certa frequencia se esquecem - e cada vez mais se repete - na cama de outro adormecem, com outras canções se distraem; um beijo do outro não querem, conversar muito tempo piora, ver o outro sorrindo é quase como não querer que ele seja feliz; melhor se afastar, então, deixar o tempo cuidar - pra que ressuscitar uma coisa que nasceu no fim? Não sabiam. Não sabem. Talvez nunca eles saibam, mas melhor assim.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

mulher

(removido)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

brechó

Voltou à vitrine, após algum tempo. Desta vez exposto, parecia mais vibrante, iluminado, tropical. Já o havia visto, em outras ocasiões, desfilando no corpo de outra. Na época, não reparou além da estampa - e se não tornasse a vê-lo, talvez nem recordasse a cor. Não fazia o estilo, e ela usava outra marca. Agora que estava com peso e medida diferente; agora que era uma pessoa mais solta, que não se limita a um jeans básico com regata branca - nem condena, nem evita; agora que era verão e ela poderia levá-lo a praia, dançar com ele, andar no shopping... Deteve-se na vitrine por minutos, mas não era impulsiva, e ficou de "pensar melhor". Nem reservou. Ele estava na vitrine, era a última tendência. E quanto mais o vissem, talvez mais gostassem dele, e talvez ele se esgotasse antes que ela o pudesse alcançar. Ponderou tentando conter o receio de vê-lo novamente em outra e dessa vez invejar. Voltou lá mais uma ou duas vezes até decidir experimentá-lo; "só pra ver como fica", disse uma daquelas mocinhas. Pegou na mão, sentiu o tecido entre os dedos. Provou. Achou que combinava. Não era questão de necessidade, sabia que era um capricho. Mas tinha tudo a ver com seus acessórios, com os lugares que frequentava; e porque lhe caiu bem, disseram alguns - mas taí uma ocasião em que não se pode ser sincero - mas quantos motivos é preciso listar pra justificar uma consequencia de viver? Contente, já saiu de lá com ele. Levou à vista. Sem culpa e sem receio. Dizem por aí que não tira mais do corpo...

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

esse cara

Ele vai te levar a lugares lindinhos com vista pro mar, e vai te contar um trecho da infância - se você puder reparar, verá seus olhos brilharem ao falar da avó materna. Depois ele te beija, e te olha te olha te olha, e desvia. Você vai sentir uma coisinha na alma, caindo, sem nome - vai se lembrar disso na hora e assustar-se com a possibilidade; mas antes que tenha medo, ele te abraça, e diz que adora o teu cheiro, o teu cabelo, sei lá, me acalma. Ele vai te ligar no dia seguinte; talvez aguarde até o final da tarde - não se desespere, ele é do tipo que liga, manda mensagem, e-mail comentando sobre aquela banda que, aliás, estará aí, fazendo um show. Ele não vai te convidar, mas preparará todo o cenário pra que você simplesmente diga "vamos", e ele vai com você; conhecer suas amigas, ele vai, se senta, bebe com elas, serão amigas dele. Ele vai dormir na sua casa, levar um dvd, um cd que ele adora, algo pra compartilharem - algo pra ser de vocês. Ele vai embora, mesmo tarde ou cedo, ele sempre vai, e você irá se questionar se é de verdade, e ele irá dar sinais por mensagem de texto. Ele tem um jeito bem interessante de ser carinhoso. E se você souber o seu jogo - como eu estou dizendo - e se seguir com isso em frente, ele vai ser só seu, como ele já foi só meu, e eu vou ficar sozinha, agora, por um tempo, porque ele é insubstituível.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

o plano

Ao girar a maçaneta, abra devagar. A porta irá ranger, e alguém notará sua presença. Entre mesmo assim. Coloque o guarda-chuva no balde que fica ao lado direito da porta, pendure o casaco no cabideiro que está isolado contra a parede, quase de canto. Em dois ou três minutos alguém virá perguntar o que deseja. Se souber, responda - não fará diferença, há uma fila. Talvez sinta-se mais desconfortável sentado num sofá que não tem o seu formato do que em pé, imaginando. Sente-se mesmo assim. Pegue uma revista para ler e finja ter interesse, como se o motivo de ter ido até lá fosse simplesmente pegar aquela - não uma qualquer; aquela - revista para ler. Estará desatualizada e provavelmente você descobrirá, dois anos depois, que a Angelina Jolie acaba de adotar uma criança vietnamita. Não erga as sobrancelhas, não faça do seu rosto um esboço da surpresa. Nem se a Xuxa cantar em trioeletríco, nem se o programa da Hebe sair do ar. Você não está ali para isso, e você sabe - é sempre pior quando se sabe, mas é também um alívio. A tv estará exibindo uma semissenhora que se comunica com um papagaio; ou um mocotó apresentando um video show. Desista. E quando chegar a sua vez, que disserem nome e sobrenome, e você se reconhecer naquilo, levante-se e vá. É inevitável. E você fará isso tantas vezes que logo lhe ocorrerá naturalmente (tão naturalmente que não fará sentido algum uma instrução desta). Neste plano você tem direito a 24 consultas por ano.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

divididos

Sem contar que era incalculável. Romperam de imediato. Melhor parar por aqui enquanto... não sabiam. Ainda hoje ela se questionou se aquele defeito dele teria mesmo atrapalhado a ponto de. Ele já não se pergunta, porque acredita que ela o superou e que a vida continua, bola pra frente, as coisas são assim, melhor não se apegar etc. Na verdade ele não acredita em nada disso. Ele ainda espera que ela telefone; mas tem que partir dela. Mas ela é tão matemática. Soma as semelhanças e se distrai num sinal estranho nas costas dele, na tosse crônica em meio ao filme, no barulho de gato que carrega às vezes na barriga - quando bebe, é só quando bebe. Ela não percebe. Ele não se atreve. A culpa é dos dois. E seguem impunes.