segunda-feira, 31 de agosto de 2009

menino levado

Quando ele chegou em casa, assim que chegou em casa, eu disse a ele que aquela seria a última vez, que não iria mais tolerar; que não queria, que não podia, que não conseguia e não iria suportar. Me debrucei com ele sobre as gavetas, e fui tirando inteiras pra fora, e fui espalhando meias pelo chão. Ele levou um susto. Ele levou um tapa. Ele levou as bermudas, as gravatas, as calças largas. Levou do banheiro a loção pós-barba, o xampu anticaspa, as cuecas penduradas. Levou o Rexona, o Azzaro, o remédio para curar a cachaça. Levou da sala as estantes de livros, os DVDs, os não-sei-o-quê da Adminstração; levou o Playstation, o aparelho de som. Levou tomadas e carrapichos, comida enlatada e garrafas pet. Ele levou uma palmada e teve de levar uma pomada, e separou alguns cotonetes. Levou a carteira, o cartão de crédito; a credencial que tinha ele levou. As contas pra pagar, levou algumas; as passagens aéreas, o veículo terrestre, até o aquário levou. O lustra móveis teve de levar, umas roupas sujas pra depois lavar, umas cifras de música pra tirar no violão. Foi andando pela casa e levando as coisas, arrastando os móveis, abrindo portas, deixando voar pela janela. Levou minha fé e a vontade de crer nela. Levou meu café, meu sono, meu cão sem dono. Levou e foi levado – foi realmente um menino levado. Levou-me os cílios num piscar de olhos, as barbas de molho; o meu perdão ele levou também. Só ficou um filho.

10 comentários:

Texto-Al disse...

gosto do teu estilo;)

T.

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Assim de supetão..., sem aviso..., um menino levado entra na nossa vida e, do modo como entrou ele sai, só que desta vez consegue levar tudo de nós..., o que encontra bem à vista e aquilo que guardamos bem escondidinho dentro de nós. Vai tudo, até a fé em nós mesmos..., fica sempre alguma coisa, pouca..., uma réstia de esperança de que logo chegue outro menino menos levado.., mais calmo..., capaz de consertar tudo o que o outro conseguiu estragar.É assim a vida...Um belo texto, Priscila. Um beijinho e até breve.

Emília

michelle disse...

Oi, Priscila,
acabo de ler seu comentário e tive uma impressão tão forte de me ler nos teus textos que não soube nem sequer comenta-los como gostaria.
Fiquei muito interessada no teu trabalho depois de ler a Cult, exatamente pela sua linguagem!
Adoraria receber comentario seu sobre minha escrita, pq me sinto totalmente amadora nisso, mas me interessa crescer neste aspecto, ainda q não seja p me tornar "escritora" de verdade!
Sou artista plastica por formação, atualmente trabalho com design grafico e desde o começo do ano presto serviços p uma editora aqui em Brasília. Faço diagramação de livros e mais especificamente, as capas.
Poderiamos pensar numa parceria, caso vc se interesse. Seria um enorme prazer produzir algo p vc!
enfim, estarei sempre aqui lendo e re-lendo tudo!

forte abraço!

mi disse...

o endereço correto é cafealmazen@hotmail.com
eu havia trocado as letras!

Cefas Carvalho disse...

Olá, Priscila, valeu o comentário no blog. Como o descobriu? Bem, li alguns dos seus textos e também gostei. São densos e brincam com questões de relacionamento, tema que gosto muito. A frase final deste conto é muito intensa. Mantenha contato e grande abraço!
Cefas

nina rizzi disse...

ficou um filho. vixxi, isso é o suficiente e o bastante. bem como a prosa.

e eu acabei de vir do laerth, onde havia uma despedida, um final, sei lá... isso significa que continuo a ouvir: trocando em miúdos pode guardar as sobras...

beijo.

caraca, olha a palavra de verificação: rethrou.

Í.ta** disse...

gente, que texto maravilhoso!

parabéns, menina!

sempre bom passar por aqui.

Luma disse...

É bem assim!! Gostei da narrativa!! Dinâmica e os quadros de imagens foram se sobrepondo! :D Beijus

Rê Piza disse...

Enquanto te lia me peguei me esquecendo de respirar. tirar o ar de um leitor vale ouro, e vc é capaz disso. parabéns! Gostei demais.
Bjos

Thais França disse...

Muito bom, adorei o trocadilho do título... seus textos são muitos sutis, muito bons.Quando crescer quer ser assim :)