quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O imperfeito do indicativo

Havia um olhar ausente. Havia um tempo que transitava entre ser, estar, permanecer, continuar... e não se alterava. Havia um pretexto para mastigar a hora - a carne fria que repousa sobre o prato com a farofa. Havia um outono, e na lembrança um verão. Havia uma insensatez coerente, uma determinação a quase nada, um impulso contido de pulverizar. Havia uma carta não escrita no colo, um suco pela metade no copo, o cheiro de alguma coisa queimando. Havia meias espalhadas, um moletom do avesso, e sobre a cama havia (apenas) um corpo. Um incenso e um cigarro. Uma picada de mosquito e um cravo. Havia aparelhos retirados das tomadas, toalhas secando na varanda, e no banheiro um perfume de lavanda – um tapete, uma gilete, uma descarga. Havia uns planos, uns panos de chão. Um boato, um beijo de lado, uma abolição. Havia uns pratos sujos e um enjôo. Dois papagaios mudos e um estouro. Alguma coisa se quebrando havia - um susto, uma suspeita, um senão. Havia um contrário – do sim, da cura, daquele. Havia um estopim e um início. Uma casa de dois quartos e um edifício. Um estresse, um flashback, um gold fish - uma fisgada.
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Havia a ausência, enfim. Mas fora isso, não havia nada.

9 comentários:

jupyhollanda disse...

lindíssimo texto! Amei!

B-Juju

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Gosto muito dos teus textos; gosto de me embrenhar neles...,estudá-los..., tentar decifrar o que está por trás das palavras que escreves; tarefa difícil..., o que está por trás delas só tu sabes.., o que eu consigo ver nelas só eu sei, não é mesmo? Há alturas na vida em que pensamos que havia tudo..., tinhamos tudo..., sabiamos tudo, até mesmo quem eramos. De repente..., por algum motivo achamos que não há nada..., não temos nada..., não sabemos nada e nem sequer sabemos quem somos. No entanto, temos que nos lembrar que a vida é feita de ciclos..., de etapas..., de um constante começar de novo; há tudo agora.., temos tudo ..., sabemos tudo..., sabemos quem somos; vamos voltar a não ter..., a não saber.... É assim a vida.., são assim os nossos dias. Enquanto cá andarmos vamos continuar dizendo: havia..., era..., sabia...; assim como vamos voltar a dizer: não há..., não é..., não sei.., mas...,é preciso esperança, pois vai de novo.., haver...ter..., voltar a ser... Beijinhos e que encontres sempre o caminho certo neste emaranhado de tempos verbais que são os nossos dias. Até breve

Emília

Priscila Lopes disse...

Emília,
Adoro ler suas considerações sobre os meus textos. Muito obrigada! Ando seu tempo para dar o devido feedback ao pessoal que acessa o blog; mesmo quando acesso o de vocês - que é quase todos os dias - acabo não encontrando inspiração para escrever embora muitas vezes o que eu leia seja inspirador.

Um abraço em todos que me lêem. Adoro-os. De verdade.

Adriana Godoy disse...

Ei, Priscila, estava lendo seus textos e me dei conta de são muito bons.Gostei muito. O seu jeito de escrever é gostoso e a gente vai viajando nas histórias. E parabéns pela publicação na CULT, vou comprar. Beijo.

Graça Pires disse...

Obrigada pela visita e pelas palavras deixadas no meu "Ortografia". Virei visitar-te mais vezes.
Beijos

vanessacamposrocha disse...

Estava caminhando pelo vazio do "seu" quarto quando me deparei com esse monte de idéia.
adorei
abraços
Vanessa

Í.ta** disse...

amei o final do escrito.

e não era preciso haver mais nada mesmo.

lindíssimo!

I believe too disse...

Há, ainda, a saudade.

Pormenor disse...

Priscila, obrigado pela passagem no meu blog.

Certamente que irei passar por cá mais vezes.

Cumprimentos.