segunda-feira, 5 de abril de 2010

sobre avisos e promessas


Soube que se separaram. Não pude conter a petulância de vir até aqui, de sair sabe lá Deus de onde, e vir, sabe lá Ele com que forças, até aqui, pra dizer que eu te avisei. Eu te avisei, eu te avisei. Eu disse tantas vezes que poderia citá-las pra que adormecesses, meu anjo. Eu disse e pensei e acho até que incomodei você com esse assunto por meses, até que você se foi, e eu entendi mas não me conformei, nunca. Não sou homem de mascarar sentimentos, não sou homem de achar que é humilhação qualquer palavra dita num momento de emoção. Até mesmo os palavrões; venero todos, e os trago pra junto de mim, e os abraço - são filhos meus naquele instante. De te esperar, a vida foi ficando. Depois, antes que eu encontrasse uma forma de te reencontrar, perdi o ânimo que me levava a tomar conta de você, a espreitá-la sussurrante, a recusá-la de tanto amar. Fiquei sabendo que estavam bem. Fiquei sabendo que tiveram um filho. Esperei você me ligar nesse dia, como se houvesse possibilidade - havia? Esperei você me ligar no mês seguinte, e naquele ano todo eu andei por lugares em que corresse o risco. Até que um dia eu vi num fime... não, eu ouvi numa música... eu li no Coríntios... eu pensei comigo... que o amor é paciente, ô se é, o amor é um doente bêbado que vive cantando na sarjeta; ou um balão desses que transportam pessoas, que a gente olha pro céu e não acredita como é que voa. E eu te deixei de lado, e eu me deixei ser feliz. Mas agora recebo notícias tuas na Páscoa. Vocês se separaram. E você tem um filho pra criar; eu sei, esse cara não tem condições de lhe pagar uma pensão. Então eu tô te escrevendo aqui pra esse e-mail que me disseram que de vez em quando você acessa. Tô escrevendo pra pedir tua conta bancária e tua agência, teu retorno, teu carinho - tua carência? - teu perdão; tudo-tudo, e simplesmente que, por favor, minha filha, volte pra casa. Beijo do pai, da mãe e do cachorrinho Tobby.

6 comentários:

Cefas Carvalho disse...

Ótimo texto, com o peso que aprecio em contos e drama que a vida tem. Parabéns. Ah, aproveito a visita (e o comentário) para te convidar para uma brincadeira cinéfila que faço há tempos lá no meu blog (não o literário, mas o jornalistico, www.cefascarvalhojornalista.blogspot.com ) Abração!

Í.ta** disse...

quinta-feira estarei na livros e livros, pro lçto do livro do gabriel gomez. rubens da cunha fez a orelha do livro, ou a introdução, agora não sei. vou ver com ele se ele estará lá também. e tu, vais?

beijos.
vemo-nos por lá, qualquer coisa.

Mai disse...

Muito interessante!
E tudo que é dito com emoção, resta. E o silêncio também restará.
Avisos, sobreavisos e sobre eles, um belo texto.
(como sempre)

Cynthia Lopes disse...

Muito legal Priscila.
A narrativa envolve a gente até o desfecho.
bjs

bossa_velha disse...

Priscila, gostei muito e, sendo bastante franca, você é uma das pessoas que mais gosto de ler por aqui. A sua escrita é muito interessante.

Francisco Coimbra disse...

Pois é, se não fosse, ainda assim, mereceria ser: um comentário parado, deixado no limbo das ideias, paredes meias com o texto. A realidade é sempre o melhor pretexto, o real isso aqui, o que conta... Parabéns!