domingo, 7 de junho de 2009

Obrigado, meu amor!

“Oi... Eu tô ligando para te agradecer... Como pelo quê? Por tudo... Quê?... Sim, mas me deixe concluir, mulher!... Claro, claro que estou ligando pra pessoa certa... Sim, é o Valdir! E eu, Valdir, quero te agradecer por tudo o que você fez por mim. Mas como foi muita coisa, vou ter de listar:

1º Obrigado por entrar na minha vida no momento mais inoportuno, me fazendo entender que meu casamento já havia morrido há anos – e me ajudando a enterrá-lo de vez;

2º Obrigado por se instalar em minha casa logo na primeira semana, reorganizar minhas gavetas de modo que eu não encontrasse mais nada, me ajudando no processo de separação da outra mulher - que deixei, claro, só porque já não sentia o mesmo por ela.

3º Obrigado por me ajudar com as compras do supermercado, com meu novo visual – embora me sinta um punk aos 40 – com minha conta bancária – tenho certeza de que você me endividou para me ajudar a enfrentar meu medo de aceitar riscos;

4º Obrigado por me fazer compreender os signos e seus decanatos. Graças a você, estou sabendo que nossas Luas não se cruzam, nossos ascendentes compartiham defeitos e nossos signos são de elementos contrários;

5º Obrigado por me comprar um cachorro. e já agradeço também por ter colaborado para a minha descoberta de que sou alérgico a pêlos de cocker. Mas que cãozinho atencioso aquele, é um "reloginho";

6º Obrigado pelos bolsos, carteiras, gavetas e móveis revistados. Hoje em dia sinto-me, além de organizado, um homem precavido;

7º Obrigado pelos absorventes, de vários modelos e tamanhos, que você esqueceu em meu banheiro junto da sua escova de dentes. Nunca se sabe quando vamos precisar emprestar essas coisas a alguém;

8º Obrigado pela atenção infinita e dedicada ao longo desse efêmero envolvimento; a necessidade de me possuir com exclusividade constante e integral; o desejo de me cobrir de beijos em um dia e de ausência no outro; a compreensão de que sou vinte anos mais velho que você, mas que com certeza poderíamos passar uma semana em Ibiza; o tato para lidar com o fato de que tenho filhos da sua idade – levando-os para sair todas as sextas e me convidando a buscá-los ligeiramente alcoolizados (os três);

9º Obrigado pelos planos que fizemos juntos, os sonhos que sonhamos, os projetos de vida que idealizamos. Se eu encontrar outra pessoa, nesses anos de vida que me restam, talvez dê tempo de pegar tudo isso emprestado e tentar realizar com essa pessoa;

10º Mas principalmente muito, muito obrigado pelo filho. O filho que você deixou tão cautelosamente em nosso quarto, dormindo abraçado em teu pijama. O filho que eu nem sei como se chama, e por isso batizei de Jesus – “Pobrezinho, nasceu em Belém...”. O filho que não é meu. Obrigado.

Quê?... Eu não terminei. Acho muito clichê terminar no décimo item... Mas é claro que tem mais coisa: é que eu não tenho certeza do bairro em que você se encontra, mas conheço a localidade. Então... obrigado. Obrigado por ir à puta que pariu!”
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Crônica é destaque no http://www.desacato.info/, e recebe inclusive uma versão em espanhol por Raúl Fitipaldi, da América Latina Palavra Viva.

5 comentários:

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Priscila,
Muito obrigado pela visita e comentário, volte sempre. Vim conhecer seu lugar mas hoje foi tudo muito apressado.
Se quiser levar para os blogues que referiu algum poema meu, sou eu que agradeco. Nao preciso lhe pedir a referencia aos créditos pois já deu para ver que serao respeitados. Me avise se publicar alguma coisa.
Um grande abraco
Namibiano Ferreira

Gato Vadio disse...

A maravilhosa vida a dois. As consequências da dependência dos sexos, apesar das diferenças insuportáveis e insuperáveis. Por amor, vale tudo - até mesmo deixar de ser gente. Ah, o amor...puta que pariu, love! Belo texto, abraço do Jorge.

Héber Sales disse...

Sensacional! Li a riso solto, numa só levada. O ritmo está perfeito, e o conteúdo, espertíssimo. É isso mesmo. Abraço!

Alexandre disse...

Muito bom mesmo. Estou rindo bastante até agora. Forte abraço

Eduarda disse...

Adoro esse texto.