sexta-feira, 24 de julho de 2009

Desenterrando caixas

Ela andou desenterrando algumas caixas. Ela estava bem; esteve trabalhando, conhecendo gente e assistindo a filmes. Um deles era sobre enterros, e ela andou desenterrando algumas caixas.

Em todas elas havia uma coisa sua que julgava esquecida, e tinha a ver com aquele filme. Eram imagens deslocadas no tempo, que traduziam um sentimento agora verdadeiro. Fora necessário o distanciamento. Fora preciso jogar um pouco de areia sobre aquelas coisas que estavam expostas em demasia. Era uma extravagância só, era uma euforia pública. Então, ela as enterrara, mas havia deixado sobre elas um sinal. Por isso sempre soube o que significavam, mesmo ignorando-as lá.

Ela desenterrou algumas caixas, olhou atentamente amando-as; tratando a si com benevolência e cumplicidade. Um momento de amor de si, sem julgamentos. Como um gato que se mantém fiel à casa, aquelas coisas suas haviam permanecido lá.

Houve silêncio. Houve conversa. Houve confronto de ideias remotas e atuais. Em algum momento se coincidiram, se corresponderam, mas depois se viu que eram predominantemente conflitantes, e que havia um motivo para tanto: a mente permanecera operante, enquanto as ideias permaneceram lá.

Por alguns instantes, ela sentiu-se em um dilema. Não sabia como lidar com todas aquelas coisas que trouxera à tona. Então achou que algumas poderiam servir ao coração, que outras poderiam adaptar-se à mente, e o restante devolveu às caixas e as enterrou de volta lá.

Pelo menos até o próximo filme. Ou até a próxima música. Até vazar.

11 comentários:

BAR DO BARDO disse...

Pandora lúcida e esquizofrênica... Parece um conto maravilhoso...

Eu gostei.

Monique Frebell disse...

Obrigada pela torcida.
Logo logo eu volto!

Bjus!

=)

nina rizzi disse...

eu gosto de (me) revirar assim as caixas e gavetas. sai cada coisa. cada pedaço de nós...

beijo :)

sueli aduan disse...

gostei muito de tudo por aqui,
"muito bom", "visitarei sempre.
abs

Vieira Calado disse...

Por vezes é difícil lidar com coisas do passado...

Bjs

Estela disse...

Oi Priscila.
Obrigada pela visita ao "Poesia nunca é demais".
A nossa vida é uma caixa de surpresas, e dentro dela muitas outras caixinhas que vivemos a remexer...
Bjs.

Victor Gouvêa disse...

Priscilla!!!
Obrigado por aguentar ler as merdas qu eeu falo. hahaha! Adorei sua crônica. Num consigo escrever muito agora pq to morrrrrrrrendo de pressa e assim será até setembro, mas te-ju-ro que depois venho e te leio de cabo a rabo. Ah, e num to fazendo isso pra trocar amizade blogueira não. Paputaquepariu com essas coisas. Digo deveras. hehehe

Beeeju!

Moça do Fio disse...

Moça!!

Desenterrar caixas é bom. Faz a gente ver coisas que estavam esquecidas, quietinhas. Daí, vêm as lembranças, as suspresas, as emoções.
E quando menos se espera, os olhos deixam vazar algumas lágrimas ;-)


Beijo.

Lídia Borges disse...

Muito interessante, este texto.
Gostei desta espécie de reciclagem das memórias.


Um beijo

Emília Pinto e Hermínia Lopes disse...

Olá Priscila. Disse que te visitaria..; aqui estou. Adorei este texto. Lindo e bem escrito. De facto nem sempre sabemos o que fazer com s coisas que resolvemos tirar ds caixas onde estavam guardadas. Quem mandou abri-las? Melhor seria que ficassem fechadas para sempre...; às vezes até é bom abrir algumas...; recordamos..´, reutilizamos..., consertamos certas coisas que se foram estragando..., que não foram bem acondicionadas. Será uma oportunidade de as consertar, refazer, aperfeiçoando-as. Depois..., colocamos tudo em caixas novas e voltamos a guardar. Agora há que arranjar outras coisas ainda melhores para depois voltar a colocar numas caixinhas ainda mais perfeitas. É a tal oportunidade de começar de novo que a vida sempre nos dá.A cada dia temos sempre uma nova oportunidade de fazer cada vez melhor. Um beijinho e até breve
Emília Pinto

Anderson Fonseca disse...

Priscila, este seu conto é otimo, eu diria pertubador, ou,... uma confissão discreta de uma emoção há muito escondida, parabéns!