terça-feira, 3 de novembro de 2009

pequena epifania

Oi, há quanto tempo não nos vemos! Eu poderia ter escrito um e-mail, eu poderia ter visitado seu orkut e deixado um recado, mas só o que fiz foi pensar em você. Todos os dias, quase. Gosto de pensar que estamos conversando, eu te contando coisas minhas, inutilidades cotidianas; boba que sou, imagino a gente andando pela rua, olhando as vitrines, eu te puxando pelo braço em direção à máquina de sorvete italiano, você pede um misto de creme e chocolate, eu de morango, a gente se senta para ficar à vontade, e a tarde não passa, são três horas, a gente queria estar na praia. Quando imagino essas coisas, são quase lembranças. Acho apenas que nos esquecemos. Eu estava indo e você vinha vindo também, daí a gente se perdeu - e até se deu conta, mas fingiu que não; como quem cruza um conhecido na rua e quase não presta atenção: eu vi você e sei que você me viu, e vice-versa, mas a gente seguiu adiante. Porque algumas ações dependem de decisões a serem tomadas em segundos. No segundo seguinte já passamos um pelo outro e voltar atrás esboça um desespero sem cabimento. Aí fica assim, a vida passando, a gente indo, quase se esquecendo do que ia dizendo quando, de repente, um sonha ou escuta ou interage com qualquer recordação saltitante, e percebe que faz tempo e quer entrar em contato. Aparentemente não faz muito sentido para o outro que ainda não estava preparado, que ainda não fora tocado pela sensibilidade da saudade ou qualquer coisa que se chame nesse sentido. Então o outro desconfia, quer saber por que, como, desde quando e não obtém resposta, a gente se afasta de novo, até outra recaída saudosista. Ou futurista: apenas pra te contar que estou partindo, vou morar na Itália... Mas o número mudou, e você não liga; o e-mail retorna, e não se escreve; os conhecidos em comum são completamente estranhos agora, e ninguém mais se entende nem se atende pelo nome. Então estou aqui neste espaço que não é e-mail nem telefone nem convivência, que é um espaço apenas e não se propõe a mais nada além de publicar-me;estou adorando isso porque é como pensar, mas um pensar testemunhado: este documentário é todo o meu silêncio (quem me assiste e me julga, não me interroga porém). E você, como tem passado? Fez um blog também? Eu não te procurei pra dizer essas coisas porque você não se encontra, foi o que sua mãe me disse quando telefonei anonimamente uma única vez, que você não se encontra. Engraçado, sempre achei que você se achava. Caso esteja enganada, ou sua mãe, e você tenha se interessado por realizar o meu singelo sonho de tomar um sorvete numa tarde de sol, aqui estou eu e não estou. Neste espaço, acontecendo, ainda.

9 comentários:

sidnei olívio disse...

Priscila, gostaria de publicar um texto seu no "proseares", topas?
Beijo.

sidnei olívio disse...

Seus textos sempre me inspiram, mas o publicado no "proseares" já é antigo. Priscila, envia-me quando vc o quiser e publico. A honra é toda minha. Beijos, querida.

BAR DO BARDO disse...

Pri(scila), tem gente que escreve, tem gente que arrasa - você tem duas gentes.
Namastê!

Henrique Pimenta disse...

este documentário é todo o meu silêncio - Isso!

Paulo Henrique Motta disse...

muito, muito, muito obrigado pelo comentário no Blog do Bolha do meu poema.
adorei seu blog.
voarei por aqui mais vezes.

posso tomar a liberdade de te add no meu blog??

abraços do Paulinho

Adriana Godoy disse...

Gostei. Priscila. muito. Beijo.

Joel. disse...

Nossa! me fez transportar no tempo, no espaço, nos pensamentos, nas lembranças...

a vida vivida por todos e por ninguém.
Por "alguéns" numa rua qualquer...

saudades do que foi, do que é, do que será, e, principalmente, do que nunca aconteceu, nem acontecerá.

parabéns pelo texto.
É onírico e ao mesmo tempo visceral.

bjo.

Rubens da Cunha disse...

que texto interessante, quase metalinguistico, muito sensível, pessoal... mesmo não tendo vivido tal situação, é bem fácil se identificar com ele... abraços

Í.ta** disse...

é, uma coisa meio metalinguística muitíssimo bem escrita, como todos teus escritos.

por isso que sempre volto praqui.